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Desapego

 


PRATICANDO O DESAPEGO 

Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final.
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.

Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos.
Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora.

Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. 
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos. Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: Diga a sí mesmo que o que passou jamais voltará.

Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo... 
Nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Encerrando ciclos, não por causa do orgulho, por incapacidade ou por soberba... Mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais em sua vida.

Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira.
Quando um dia você decidir pôr um ponto final naquilo que já não te acrescenta, que você esteja bem certo disso, para que possa ir em frente, ir embora de vez.

Desapegar-se, é renovar votos de esperança de sí mesmo,
É dar-se uma nova oportunidade de construir uma nova história melhor.Liberte-se de tudo aquilo que não tem te feito bem, daquilo que já não tem nenhum valor, e siga, siga novos rumos, desvende novos mundos.

A vida não espera.
O tempo não perdoa. 
E a esperança, é sempre a última a lhe deixar.

Então, recomece, desapegue-se! 
Ser livre, não tem preço!

 

Fernando Pessoa

Doando

 


" As plantas acenavam ao vento de agosto,  nas suas hastes finas e verdes. 

 E disse-me a mais faladora de todas, alta e trigueira:

 - Dás-me dez anos da tua vida? -

 Eu só tinha cinco anos, pus-me a contar pelos dedos,

Vi que ia ficar com muito pouco.

 - Dou - disse eu - 

E ainda hoje, que nunca mais soube de mim,

 vou com o vento, balouçando.

 E agosto é todo o ano para mim."


Autor: Rui Belo, ensaísta e poeta portugues


Homem Invisível


 #RalphEllison foi uma figura guia em artes e cultura durante a sua vida, escrevendo sobre raça, música, política e literatura. O seu romance, "Homem Invisível", segue um protagonista negro anónimo durante toda a sua jornada para Nova Iorque, onde deve confrontar as realidades de uma América segregada. Esta fotografia de #JeffWall inspirou-se no prólogo do romance que é curto em detalhes, exceto um: 1.369 lâmpadas cobrem o teto do covil subterrâneo do narrador. A começar com este detalhe fantástico, Wall imaginou escrupulosamente a forma concreta do espaço metafórico de Ellison

O molusco


Agarrado á pedra meu  pensamento voava...

As ondas me traziam as cartas que ela escrevia

e que eu nunca respondia. O tempo todo eu imaginava

as cores que escolheria para minha concha ser sempre

a que todas preferiam.


                                                        B.A.

Inspirado por um conto do livro as Cosmicómicas de Italo Calvino

Italo Calvino (1923-1985) foi um renomado escritor italiano, conhecido por sua habilidade em mesclar elementos literários e científicos. Ele contribuiu significativamente para a literatura contemporânea, explorando diferentes gêneros e estilos ao longo de sua carreira.

"As Cosmicômicas" ("Le Cosmicomiche"), publicado pela primeira vez em 1965, é uma coletânea de contos que combina ficção científica, filosofia, mitologia e humor. Os contos exploram a evolução do universo desde o Big Bang até os eventos mais recentes, mas com uma abordagem literária e fantástica, muitas vezes protagonizados por personagens mitológicos ou alegóricos.

A estrutura narrativa do livro é única. Os contos são contados pelo personagem Qfwfq, que existe desde o início do universo e testemunha todas as transformações cósmicas. Cada conto é uma exploração poética e imaginativa de conceitos científicos, como a formação das estrelas, a expansão do universo e a evolução da vida.

Calvino utiliza uma linguagem lúdica e simbólica para abordar temas complexos de uma maneira acessível e criativa. As histórias de "As Cosmicômicas" proporcionam uma experiência única, desafiando as fronteiras entre ciência e literatura, realidade e imaginação.

O trabalho de Italo Calvino, em geral, é celebrado por sua originalidade e pela capacidade de transcender categorias literárias convencionais. Suas obras, incluindo "As Cosmicômicas", continuam a ser estudadas e apreciadas por leitores e acadêmicos ao redor do mundo.




Vento


  Ele passava, passando, invisível e constante.
 Por vezes acariciando, outras maltratando.
Um dia, ele parou, ficando.

                                                         B.A.
  

O bem e o mal

 


Monumento Wisława Szymborska em Kórnik

...."O bem e o mal. Eles sabiam pouco de ambos e sabiam tudo:

quando o mal triunfa, o bem se esconde;

quando o bem se manifesta, o mal está à espreita.

Um e outro são invencíveis

impossível bani-los para além de onde há retorno.

Portanto, não há alegria sem sombra de medo,

e não há desânimo sem um vislumbre de esperança.

A vida, por mais longa que seja, sempre será muito curta...

Muito curta para adicionar qualquer coisa a ela."


Trecho de um poema de #Wisława Szymborska, uma das poetisas menos conhecidas do mundo, apesar de, em 1996, ter ganho o Prêmio Nobel de Literatura. Infelizmente, já não podemos contar com a sua presença, visto que faleceu em 2012, mas o seu trabalho continua a durar ao longo do tempo e com certeza já o terás deparado alguma vez.




Um poema



Da calma e do silêncio

Quando eu morder a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio

da poesia penetra.


– Conceição Evaristo, no livro “Poemas da recordação e outros movimentos”. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Todas as manhãs




 Nascer Todas as Manhãs

"Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca.
Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição.
Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento.
Esquecer em cada poente o do dia anterior.
Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória.
Nascer todas as manhãs."

Miguel Torga, in "Diário (1982)"
© Direitos reservados - Fonte
Fotografia: Betty Alvarez

Evocando reencontros

 


"Uma espécie de luz espalhou-se dela. E tudo mudou de cor. E o mundo abriu-se. E foi bom despertar um dia. E não havia limites para nada. E as pessoas do mundo eram boas e bonitas. E eu já não tinha medo." Fonte

John Steinbeck - A Leste do Éden

Hermann Hesse sobre sim mesmo




" Não sou um homem que sabe. 

Fui um homem que procura, e ainda sou;

 mas não procuro mais nas estrelas ou nos livros, 

começo a ouvir o ensinamento que meu sangue murmura em mim.


Minha história não é agradável, 

não é suave ou harmoniosa como as histórias inventadas; 

Tem gosto de tolice, loucura e sonho, como a vida de todos os homens que 

não querem mais mentir para si mesmos."

Hermann Hesse

A floresta

 

"... quando a mesa recorda, quando a cadeira,
 o armário, o albergue, a janela
lembram de suas raízes, de suas seivas,
 de suas folhas, de seus ramos, 
de tudo que neles vivia, de ninhos e canções,
 da neve e o vento ... 
um arrepio percorre a casa, que é novamente a floresta." 

A floresta habitada (Radio3)

Turner, Carvalho, Poema, Aquarela...

 

"Esta aquarela de J.M.W Turner não é maior do que a palma da sua mão. É tão pequena que o artista usou um pincel de um único fio de cabelo para pintá-la. A pintura mostra o tronco de um carvalho sendo transportado para um estaleiro naval. É um dos dois que ele combinou com um poema de Samuel Rogers intitulado 'To an Old Oak', que descreve a vida de um velho carvalho."  Mais  -  O poema




Tudo azul
































Então pintei de azul os meus sapatos  por não poder de azul pintar as ruas.
Depois vesti meus  gestos  insensatos e colori  as minhas  mãos e  as tuas, 
para  extinguir de  nós o  azul ausente e aprisionar o azul nas coisas gratas.
Enfim, nós derramamos simplesmente azul sobre os vestidos e as gravatas
e afogados em nós nem nos lembramos que no excesso que havia em 
nosso espaço pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos no azul nos contemplamos.

                      Carlos Penna Filho


Como os sonhos

Imagem relacionada

"As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspetivas enganosas e que todas as coisas escondam outra coisa."

                                                   Fragmento de As cidades invisíveis de Ítalo Calvino

O Haver

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Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto 

Esse eterno levantar-se depois de cada queda 

Essa busca de equilíbrio no fio da navalha 

Essa terrível coragem diante do grande medo

Esse medo Infantil de ter pequenas coragens.








Ar de vidro



Talvez uma manhã andando num ar de vidro, árido, 
voltando-me com um terror de bêbado. verei cumprir-se o milagre: o nada às minhas costas, detrás de mim o vazio.

Depois, como numa tela, acamparão de um jato 
árvores, casas e colinas para a ilusão costumeira. 
Mas será tarde, e eu partirei calado 
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.





O olhar do outro

Foto de Laura Williams

O olhar precede o gesto e a palavra. Muito antes de sermos capazes de coordenar nossos movimentos no espaço ou organizar o pensamento em linguagem, podemos ver um outro que nos olha e que, como um espelho, nos confirma 
que somos um, um inteiro no mundo. Nessa identificação com a imagem alheia nos constituímos e, ao longo da vida,
 passamos a buscar nesse outro a validação do que somos e o que queremos ser. 

Razão e Sensibilidade



Ninguém tem mais tempo – ou disposição – para medir palavras...


"Em 1811, Jane Austen tecia uma crítica aos costumes de sua sociedade e dizia que sem   equilíbrio entre Razão e Sensibilidade a vida se tornava infortúnio.
Em 2015, ainda precisamos ler Jane Austen".
                                  Renato Essenfelder - Leia mais.

De verdade


"... trocavam idéias sobre o fato de que nesta grande abundância, na América, poucas eram as pessoas satisfeitas. Nisso eu prestei atenção, porque eu também sentia algo parecido. Quando alguém vinha de fora, do outro lado do oceano, não compreendia... Mas quando se aquecia, virava nativo, como eu... Eu também penso nisso, esfregando o queixo, como quem esqueceu de se barbear. Porque não vale a pena negar que aqui, onde as pessoas têm tudo o que é necessário para a boa vida, felicidade... sabe, felicidade verdadeira, sorridente... é como se ainda não existisse. No vizinho, na Macy's, você acha tudo o que é necessário para a felicidade terrena. Até isqueiro com chama eterna, num estojo. Mas felicidade não se vende nem lá nem na seção de vitaminas."



  Texto:  Do livro de  Sándor Márai, " De verdade"
  Foto: Sebastian Dufour

Qualquer amor






"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa,
sem perigo de ódio, se a gente tem amor.
Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."


João Guimarães Rosa - excerto de Grande Sertão Veredas (1956)